RELATION ANONYME DU SOULÈVEMENT DE TANGER
2li AOUT l6/i3'
Le I" décembre i64o, profilant des embarras où se trouvait la cour d'Espagne en guerre avec la France et aux prises avec la Catalogne révoltée, les Portugais s'étaient déclarés indépendants et avaient élu pour roi le duc de Bragance sous le nom de Jean \\ . Les colonies suivirent presque toutes l'exemple de la métropole. Ce fut le cas de la fronteira de Mazagan - qui acclama avec enthousiasme le souverain national monté sur le trône de D. Manuel. Les villes de Tanger et de Ceuta, dont les sentiments pour le nouveau pouvoir ne faisaient aucun doute, se trouvaient dans une situation plus difficile pour les manifester à cause du voisinage de l'Espagne. Cependant le 2^ août iti43 les Portugais de Tanger se soulevèrent contre leur gouverneur D. Rodrigo da Silveyra et proclamèrent le roi Jean IV. Seule des anciennes fronteiras portugaises, la place de Ceuta fut conservée à l'Espagne par son gouverneur D. Joào Soarez '. Une fois soustraite à la domination de Philippe IV, la ville de Tanger éprouva de grandes difficultés à se ravitailler : non seulement la Hotte espagnole croisait dans le Détroit pour intercepter toute communication entre le Portugal et la place alfamée, mais on y voyait encore les vaisseaux de l'Angleterre et de la Hollande qui, au courant de la situation précaire de Tanger, avaient aussi des visées sur cette place. Les Maures d'autre part occupaient la campagne et, sous la conduite de El-Gliaïlan, harcelaient la garnison par d'incessantes attaques.
En tête, alla manu : Rebelion de Tanjar. — Agosto 2/1, t643.
Relaçâo do que succdeo iiesta cidade de Tangere da aclamaçâo que se lez nella em 2/1 de Agoslo. — Inviadu daquella cidade por
I. Bien que le dernier fait mentionné 2. Le gouverneur do Mazagan était alors
dans cette relation soit du i4 décembre D. Martim Correa da Silva ; il avait succédé
1643 (V. infra, p. 601), il a paru préférable dans ce commandement à l'Infortuné comte
de publier à cette place ce document non de Gastello Novo.
daté et consacré presque entièrement au 3. Sur ce personnage, V, infra. Doc.
récit du soulèvement de Tanger. CXXllI, p. (347.
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Teluâo a esta ao beneficiado Ignacio da Costa, criado do bispo que nesta praça esta ' , vinda ao Marques de Miranda no masso das cartas.
Dous meses anles desia aclamaçiîo, se traloii entre muitos moradorcsdcsta cidade. pessoas nobres c principaes, com effeito se resolverâo a ganhar a fortaleza do castello e prenderem ao Conde das Sarcedas^ gênerai que foi desin força por el Rey Dom Pheb'ppe, lendose por couza milagroza que, em tempo de dous annos^, se nâo soubese do determinado, estando este segredo entre cento e oitenta homens, sem aver aviso nenhum ao gênerai : e sospeitandoseque sesaberia, sendo que, conforme se diz, estava este segredo a entre muitas molheres divulgado e meninos, receosos de tan grande crime, se resolverâo vespera de Sâo Bertolameo très horas antes da menliâ. sendo que desde prima noite se avisarâo huns aos outros para o ta! effeito. e se hiâo liindo ao Convento recolherse para de alli sahirem ao effeito a que biâo apolidados por Dios, pois era o resgatar esta cidade de tantas incomodidades e trabalhos a que estava sogeita com tantos casiigos e oprobrios, que se forào inda os melhores délia, tomando tanto os poderes aos homes, que ja se nâo podia com tanta dilaçào.
E foi o caso que. recolliidos todos ao Convento, tendo de antes concertado com o capilào da guarda a entrada do Castello, ende elle era de guarda aquella noite. mandou logo guardas a prima a porta do Castello. para que pessoa alguma fosse para riba, nem desese para baixo, e as que viesem as levasem ao Convento, onde cstavâo os mais adjuntos. Estando ja tudo posto a ordem, se sahirâo 1res boras ante menlià. e forào pclla praça e calsada asima, por nâo sereni vislos das vigias do Cliounso. e trepando ao Castello, cerrarâo a porta délie, |)or (pianln o porleiro délie, (jui era Manoel
1. Col pviîqiin pst nommi' plus loin Sarzodas, avait succédé à Fernando i< Dom Gonçalo » ; il s'appelait D. (îon- Mascarenhas comme gouverneur de Tanger çalo da Silva ; il fut évêque de Ccula (i5 avril 1637). l'our l'attactier à la cause de i635 à i6^f). V. Gams. Séries e.piscopo- cliancelanle de l'I'îspagne, Philippe IV le rum. Cette indication permet d'établir que nomma en i6io marquis de Sovereira la présente relation fut adressée de Tanger F(Tmoza.
à Ceuta par la voie de Tétouan. 3. Il )• a plus haut : dous meses, ce qui est
2. Rodrigo da Sylveira, comte das beaucoup plus vraisemblable.
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Diaz de Villalobos, tinha as chaves, era tambem da junta, serrarâo a porta délie, e dali mandarâo logo que trocasem alva', e mandou o capitâo Francisco Lopez seu filho Afonso d'Aranjo com doze soldados, os mais délies estudantes, que se pusessem no posto das Conejas, e outres sobre a granja do Chouriso, e outros a porta da Ferraria, e trepando ao Paço com os dous religiosos e arcediago de Arzila', sendo que eu fui o quarto, que cheguei per me avisarem de noite, trepando pella escada do Passo, cliamarâo pella guarda de dentro, sendo que sem acudir, como lodo vinha ordenado pello ceo, as portas da sala se Ihe abrierâo, e logo forâo ao aposento, onde estava deitado \ e o cliamarâo. Abrioe a porta, asigurandoo que nâo o matariûo ; que estava alli o povo, que aclamava el Rey nosso senhor Dom Joâo por su rey e senhor.
Elle, tâo terneroso que o matassem, logo de denlro o aclamou por su roy, que elle sempre no seu coraçâo o tivcrapor seu senhor, e, abrindo a porta, se abraçarâo com elle, e o prenderâo, sendo que levavâo macliados para Ihe abrirem a porta. E sayndo fora a marquesa desmayada, pedindo a matassem antes a ella que o Conde, Ihe pedirâo as chaves da cidade c de toda a sua secretaria ; e as entregou. E levandoo a galaria, disserâo que nâo queriâo que se prendese alli ; e levandoo a Torre do Sono, o trouxerâo ao corpo da guarda, onde esteve.
E logo todo o povo se sogeitou sem baver perigo algum, e, antes das horas de matines, tudo estava quieto, aclamando ao nosso Rey e senhor. Tratando de fazer governador, o fizerâo e seus adiuntos im a hermida de Jésus, assistindo o cabido e mais povo. Elegerâo André Dias da França, e seus adjuntos : o contador', ojuis dos orfâos\ Diogo da Sylveira, Francisco Lopez Tavares, o provisor% que o nâo quis ser, por respeito da niuita ocupacâo que tinha e estar enferme, e o chantre, e do mesmo modo se escusou, e em
1 . Trocasem alva, pour : tocasera alva, Sarzedas gouverneur de la place, bien qu'il u'ils sonnassent la diane. ne soit pas nommé.
2. La ville d'Arzila avait été reprise par 4. Le contador s'appelait Ruy Dias da Moulay Ahmed cl-Mansour\e i3 septembre Franca. V. Mene7.es, p. 169.
i58(|, mais des religieux portugais y rési- 5. Baltesar Martins de Lordello. Ibidem.
daicnt encore comme missionnaires. 6. O Provisor. magistrat ecclésiastique
3. Onde estauarfeiïado, membrcde phrase auquel les évèques délèguent leur juridicsc rapportant manifestement au comte das tion contentieuse. Moraes.
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SU lugar elegerâo Francisco Banha ; isto tudo por votos do povo, tendo pessoas para tomarem os votos, que era o provisor, e o chantre, e o vigairo. o juis dos orfâos, Diogo da Sylveira. Isto tudo antes das sais do dia ya estava concluido e quieto tudo, sem haver adverses alguns, se bem alguns fizerâo mao rostro ; contudo, hoje estâo Portuguescs : e sobre isto Ibe tirarâoas ginetas', como a Jacinto Correa e Alvaro Machado, digo : Lobo, e as derâo huma a Diogo Banha, outra a Simâo da Fonseca.
Estando tudo isto leito, aquclle dia a tarde levarâo ao Conde pera baixo as casas do Senhor Bispo com toda a sua casa, onde esta com muitas guardas, sem falarem com elle, senâo com licença dos adjuntos ; estando hum coitado feito sem falar. Sobre a secretaria se acharâo muitas cartas de frades. que falâo contra o nosso Rey Santo Dom Joâo. que assi Ihe chamâo por ser dado por Dios, e outras cousas muitas que se virâo de traiçôes que nos tinha armado assi o frade como elle ; mas o fr. Antonio ficou la ; e tambem se acharâo cartas do conego Pinto, que tambem falava. Tudo isto junto para irem a el Rey que Deos guarde.
Logo a 25, despedirâo Antonio Soares esquipado com osembaixadores a el Rey, com cartas deste povo e do cabido e a juraçao que fizerâo. Neste mesmo dia entrarâo très gabarras de Castella, huma com setecentas fanegas de trigo, e outra com 600 de favas, e outra com vinho, aseite e louça, que tudo mostrou ser milagre de Deos. E chegando ao Algarvc a fragata a 29 de Agosto ao sabado a noite com os embaixadores Francisco Banha e Diogo Vaz Machado, e Manoel de Sousa por capitâo do navio. tanto que chegarâo Ihe sairâo dous barcos. Os muy valentes Porlugueses, como liôes desatados, os nào quizerâo consentir desembarcar por cuidarem erâo Castelhanos, tanto que deitarâo hum homem em terra, e logo que conliecerâo os nossos. vcyo o go\ernador de Tavira, que o Capitâo inor estava em Lagos, Dom Francisco de Mello por governador daquelle exercito ; levandoos todos nas palmas das mâos, os mandou prcndcr cm huma hermida. e os embaixadores
I . Lhe tirarùo as rjinetas, on leur rôtira des capitainos d'infantoric portufraisc et leur grade. La ijineta était la lance courte était considérée comme l'insigne du grade.
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em sua casa niuy regalados os deteve 1res dias, aie que por detras avisou a el Rey, que estava em Evora alistando os exercitos para entrar em Badajoz, que dia de Nossa Senhora da Luz ficava' para envestir. elRey deu aos dous correos très mil cruzadosdealviçaras, e teve a nova em si très dias sem a comunicar ao povo, alegre e contente, e vindo os seus adjunlos a sua alegria, llie preguntai'âo que linha, respondendolhe que Tangere era seu, onde celebrarâo muilos lorneos e festivas, e chegou a dizer que mais fesiejava Tangere que hum fdho que Ihe havia nacido, per nome Dom Duarte, que o primeiro se chamava Sebastiâo, por quei'er o povo llie mudasse o nome^ E chegando os embaixadores, logo em o mesmo dia respondeo, que forâo seis de Setembro.
E tornando atras, a 29 de Agosto chegarâo a estacidade as fazcndas que estavào em Xerez em huma nao com Manoel da Sylveira, que se tuve por cousa milagrosa, pois se nos imposibililavâo tanlo por l'espeilo de quem nos governava ', que foi causa por onde estavào detidos. Elias se desembarcarâo com muita cautela, sem saberem os da nao que estavamos por el rey Dom Joâo que Deos guarde, e logo no mesmo dia se deu aviso que se descarregasem, e se foi a nao sem saber do caso. Nella vierâo muitas caiias do frade escritas com cifras que se nâo entendiâo, muitas velhacarias e embustcs contra esta nobre patria portuguesa, e aclamada por seu rey e senhor*.
E a tudo isto 0 Conde, sem saber cousa alguma do que passava, que para mandar o seu comprador ' foi'a a ncgoccar alguma cousa do que passava, aviâo de si dous liomens de guarda com elle : digo isto pello limite a que chegou. E anles que va mais avante, despois desla aclamaçào, que foi a 2/1, e a 26, se armou hum motim na asacaya, que foi necessario sair 0 santo crucifixo cm procisâo para se
I. Nossa Senhora da Luz. Nolre-Damc 3. Por respeito de quem nos governava.
de la Nativité dont la fôte se célèbre le 8 L'auteur fait allusion à la façon vexatoirc
septembre. dont les Espagnols faisaient senlirleurauto-
a. Lhe mudasse o nome. Le nom de rite. V. supra]>. 697. Sébastien, qui rappelait le fameux désastre ^. Por seu Rey e senhor. Il s'agit du roi
de El-Ksar e' Kebir (/l août 1578) pouvait, du frade, c'est-à-dire de Philippe 1\'. d'après la croyance populaire, porter mal- 5. Comprador, factotum, mot à mot : le
heur au nouveau-né. Cet enfant d'ailleurs domestique chargé d'aller en ville faire les
ne vécut pas. acquisition».
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aquictar o povo, com a inquietaçâo que ouve a respeito de hum dos cumplices que queriâo trepar pella escada da sala a niatar o Conde Marques', que foi ; quis o ceo que entre tantos pistoletes, espingardadas e lanças, nâo ouve risco algum. Elle sahio a janela danfe camara donde dormia o Scnhor Bispo, e disse a vozes altas : « Filhos meus: j vive el Rey Dom.Ioào meu Senhor! Se me quereis malar, aqui estou, mataïme, que eu sou vassallo del Rey Dom Joâo ! »
Ouve este dia mais confusâo de cpic ao dia de antes, que foi necessario saliir hum sacerdole tpie estava celebrando despois de consagrado com o Senhor na palcua a porta. Foi hum dia de juizo'. Nâo ha hoje homem que nâo traga consigo dous pistoletes e espingardas e couras, dormindo todos no muro e asacaya e mais lerços da cidade. aguardando cheguc capitâo de Lishoa ; isto nâo poi- tcinor de pessoa alguma, senâo tpie o governo o mandou.
I'] lornando com o conlo e socedido ])or dianle, digo que, a i/| de Dizimijro ao incyo (ha, chegou aviso del Rey nosso senhor c socorro com huma caravela com cincoenta moyos de trigo da renda do senhor hispo Dom Gonçalo de seu deposilo, que Ihe comprarào la com o dinheiro na mâo, que logo que chcgou a nova a el Rey, maridiiii lium liomem de sua eslri\eira com mil dobrôes dobrados de qualro milreis para se fazer socorro ; e ficavâo carregando duas caravelas com huma da... de trigo em o Algarve mesmo, que lé a présente nâo han ciiegado, a respeito dos levantes. Mas a estos valcrosos animos somente o gosto e valor de tâo catholico Rey nos sustenta : que ja nâo ha pessoa que. com laiilos imporlunos dantes, hoje andâo com o animo muy prompto jicllo seu Rey et Senhor, que s6 issi nos alcnta. Trouxc mais esta caravela lousinho que el Rey mandou dar a todos sem paga alguma. Tudo se lem dado muilo a contento (la cidade, (pae o governador nâo la/ iiada sem oi'dem deste povo.
Muitas cousas me ficâo aqui sucedidas do governo, mas hindo a diante escreveo Sua Alteza aos governadores, a cada hum de poisi, e ao povo todo.
Arrhives cspacjnoles du (Jonvcrnement (jcnértU de l'Alf/érie. — A'" ôl'i (anciennement: refjislre 1686, ff. 35^-357). — Copie du xxii' siècle''.